Era apenas
mais uma noite rotineira de estudante de medicina, embora eu tenha chegado ao
pronto-socorro ontem com dor. Tomei uma injeção, coloquei meu jaleco e fui
atender Contei mais de cinquenta crianças que passaram pela triagem em quatro
horas; depois perdi a conta. O pronto-atendimento infantil estava lotado porque
os outros serviços públicos da cidade destinados às crianças estavam fechados.
Nós éramos tudo que aqueles pais tinham para aliviar o sofrimento de suas
crianças. A injeção só aliviou um pouco a minha dor, que seguiu incomodando ao
longo do plantão. Eu estava lá para cuidar dos outros, e foi o que fiz. Mas mal entrei na medicina e já descobri
como é difícil fazer um trabalho humanizado quando se está sobrecarregada.
Uma vez, uma
prima me perguntou admirada: -Você cumprimenta todos os que chegam á sua sala???
-Cumprimento quando chegam e os levo até a porta quando saem. E são dezenas
todos os dias. Foram mais de 50 ‘Boa noite’s ontem, por que eu sabia que cada
paciente que chegava ali merecia ser bem tratado. E levei todos à porta. Mas a
verdade é que atender tantos pacientes em tão pouco tempo é um esforço sobre-humano
para os profissionais da saúde, cujo bem estar é cotidianamente negligenciado.
Frequentemente os pacientes esquecem que
somos humanos. Fragilizados frente à doença que bate à porta de sua
família, recorrem aos médicos como se fossem infalíveis super-heróis, e
depositam dezenas de idealizações neles. Aí começam os conflitos que tornam os
serviços públicos de saúde tão barulhentos. Em um pronto-socorro infantil
lotado, o médico é insultado quando sai do consultório para ir ao banheiro por
aqueles que esquecem que eles também tem necessidades fisiológicas. Os pais se
irritam quando o atendimento demora e se sentem no direito de desrespeitar os
profissionais do serviço de saúde. Será justo responsabilizar os profissionais
daquela unidade pela superlotação dos serviços de saúde? Será que não seria
mais coerente cobrar das secretarias de saúde que todos os serviços estivessem
funcionando?
Às vezes, até nós,
da medicina, nos esquecemos que somos humanos, negligenciando nossas dores para
cuidar da dor do outro. Foi isso que fiz ontem à noite. Dário Birolini lembra
no seu livro A estratégia da lagartixa
que os médicos são falíveis, não são super-homens, também ficam doentes e
várias outras premissas óbvias, mas que são constantemente esquecidas.
Outro dia ouvi uma piada que dizia: “médico
é aquele que acaba com sua vida para salvar a vida do outro”. Seria engraçada
se não fosse trágica. Talvez o governo brasileiro tenha levado essa
piadinha à sério quando propôs a extensão do curso de medicina por mais dois
anos através da obrigatoriedade do serviço no SUS. Essa medida que entrará em
vigor para os acadêmicos de medicina que ingressarem no curso a partir de 2015
me lembrou os tempos de trotes violentos nas universidades, onde os veteranos
diziam: “Calouro tem que sofrer mesmo”. Eu que pensava que essa época de trotes
violentos haviam dado lugar aos trotes solidários, mais humanizados e
socialmente responsáveis, agora vejo o governo planejar o maior trote já
elaborado para os que adentram as escolas médicas: serviço obrigatório no SUS
antes da especialização. Um trote que começa quando você é calouro e só termina
quando você já é médico.
Estender a graduação e adotar trabalho
obrigatório no SUS sem dar as condições adequadas é bulling federal para com
quem quer ser médico. No mínimo oito anos de unidades básicas
desestruturadas e prontos socorros superlotados. O paciente se incomoda no dia
que precisa recorrer ao SUS. Imagine os profissionais que têm que se virar com
tamanho descaso e falta de estrutura todos os dias. Falta receituário, falta
remédio, falta maca, falta segurança, falta organização, falta informatização.
Um verso da banda Teatro Mágico pode definir bem a situação do SUS: “Sobra
tanta falta”. A categoria médica mostra que o que menos falta no SUS é médico. A
mídia usa os altos salários dos médicos para colocá-los contra a população. Médico
tem que sofrer mesmo. Tem?
Que médicos teremos, quando, por um lado
exige-se cada vez mais humanização do profissional e, por outro, se importa
cada vez menos com o ser humano por baixo do jaleco? Médicos-robôs?
Amanheci
doente de novo. Nem mesmo a injeção tomada ontem me impediu de ficar de cama
hoje. Talvez mais de cinquenta boa noites numa noite sejam demais para mim que (ainda?)
não aprendi a ser robô.

