domingo, 23 de junho de 2013

Por que nossa fé é maior do que as dúvidas.






"Amigo, pra mim, é só isso:
a pessoa com quem a gente gosta de conversar,
do igual o igual, desarmado.
O de que um tira prazer de estar próximo.
Só isso, quase; e os todos sacrifícios.
Ou amigo é que a gente seja,
mas sem precisar de saber o por quê é que é."

                                                       Guimarães Rosa

domingo, 9 de junho de 2013

Por que estamos falhando como futuros médicos?

Texto de Rodrigo Pereira


TRADUÇÃO do Why We're Failing As Future Physicians, do autor Rick 
Pescatore, publicado no blog The Differential.

Estamos fazendo isso errado. 

Todo mundo que lê esses artigos tem alguma relação com a escola de 
medicina. Você já esteve lá, está lá, espera estar lá, ou conhece alguém 
que gasta tempo demais lá. Estamos todos intimamente familiarizados com 
o estudo sem fim, a memorização da bioquímica, as noites, e os testes 
iniciais. Quando Casey¹ escreve sobre seus momentos com pacientes ou 
Amanda² canta o refrão do primeiro ano, todos nós acenamos com a cabeça 
e nos identificamos com a jornada em comum.

Então, quando é que vamos parar de dizer a nós mesmos que está tudo bem? 
 
Uma postagem recente sobre a chegada de Sara³ na cena de um acidente de 
automóvel  Atingiu um nervo, e os comentários perspicazes muito ressoou 
com um pensamento que eu tive há alguns meses - que nós, como estudantes 
de medicina, estão falhando na nossa tarefa maravilhosa. Nós viemos para 
a escola médica com o grande objetivo da luta contra lesões e doenças, 
mas muitas vezes deixamos de buscar o conhecimento que nos permita 
fazê-lo. Nos contentamos com as longas aulas-palestras e aceitamos as 
páginas encadernadas de primeiros socorros como o nosso limite 
acadêmico. Apesar de começar a escola com paixão e fervor, nos 
comprometemos com a mediocridade clínica, sacrificando a competência 
prática para o elitismo esotérico.

Todos os anos, estudantes de Medicina entram nos hospitais, pela 
primeira vez, frescos da maratona acadêmica da Faculdade. Confiante das 
deficiências no armazenamento do glicogênio e dos mecanismos de reparo 
do DNA, poucos de nós têm pouca idéia como decifrar o eletrocardiograma 
do paciente no quarto 27 com dores no peito. Podemos discursar sobre a 
Alfa-1 antitripsina, mas não pode identificar o pneumotórax de tensão no 
quarto 11.

Todos nós queremos muito confortar e curar, mas lacunas nos 
nossos conhecimentos arriscaram ferir àqueles que desejamos ajudar.

Até certo ponto, não podemos ser responsabilizados. O ciclo básico 
coloca pouco valor no conhecimento clínico - derivados embriológicos e 
pancreatite mostram-se mais frequentementes do que sutis alterações na 
onda ST-T - e os estudantes (com justiça) dedicam dias, semanas e meses 
estudando exclusivamente para serem bem sucedidos nas avaliações. Além 
disso, é o nosso profundo entendimento da fisiologia e farmacologia que 
define o nosso papel como médicos, e da educação científica de base dos 
dois primeiros anos de faculdade de medicina são fundamentais para esse 
desenvolvimento.

 Há muito para aprender: fatos intermináveis ​​para 
memorizar, sempre mudando as diretrizes para seguirmos. A profundidade 
do entendimento do que é exigido para os estudantes pré-clínicos de 
medicina cresce a cada dia e, a tarefa pode ser tão esmagadora quanto é 
honrosa.

Mas podemos fazer mais. Nosso privilégio e posição exigem irmos além dos 
fundamentos, da busca de conhecimento e compreensão do lado de fora das 
páginas de Primeiros Socorros e conjuntos de perguntas do mundo 
pré-residência. Terceiro ano da faculdade de medicina não deveria ser 
uma introdução à medicina clínica, mas uma continuação da fundação que 
nos foi dada, e que temos trabalhado para construir durante os anos 
pré-clínicos. Nossos pacientes demandam isso.

 ¹, ² e ³: Autoras de outros artigos do mesmo blog.

Uma questão, duas alternativas

Texto de Vinícius Moreno

O quanto é angustiante a incerteza de uma dúvida? Uma questão, duas alternativas; biscoito de creme ou chocolate; dois filmes e uma tarde.
Sentimos nossas fraquezas em momentos assim, sentimos o tão insignificantes podemos ser. Porém essas são as melhores horas para a humildade falar mais alto, para reconhecermos nossos erros e tentarmos melhorar a partir deles :)
Deitado em um banco de madeira, ao alto um céu escuro e apenas uma estrela a brilhar, aproveito para pensar sobre isso. Sempre gostei dos mistérios que cercam as estrelas, planetas e o universo. Sempre tive curiosidade de saber um pouco mais sobre o preto leçol que vejo ao me deitar nesse banco. O quanto é angustiante a incerteza de uma dúvida? Dúvidas que tenho sobre o céu; dúvidas que tenho em minha mente.

Obs: tudo acabou bem :)

Cliques da Alma

Texto de Íkaro Murilo

E a fotografia dessas férias, de novo um menino, mais uma vez deixou marcas em mim.
    O que é um médico senão um servidor? Um servidor da vida, do próximo, do semelhante, do frágil. Hoje, ainda um simples e sonhador estudante de medicina, penso em fazer mais, fazer diferente. Mas, diferente como? De quem? Como ser forte o suficiente para não deixar a frieza necessária e saudável à minha profissão ser maior que eu, que meus princípios, que meus sonhos?

      Aprendi a suturar. Um nó apenas, mas já um bom começo.
      - Vai lá Doutor, essa você consegue. Mostra que aprendeu de verdade.
      - Doutor, é? Falta tanto ainda...
     - É um rapazinho que caiu, bateu a cabeça na calçada e está com um corte. Mas é pequeno, você tira de letra.
      - Ta certo, manda o grandão entrar.

      - Oi Doutor, já sangrou tanto. Mas ele ainda não chorou. Estou preocupada.
      - Ainda não chorou? E me disseram que era uma criancinha que ia entrar, se eu soubesse que era um homem, tinha pesquisado alguma coisa sobre futebol pra conversar. Deixa eu ver esse corte... Rapaz, se fosse em mim eu ainda estaria chorando. É um homem mesmo. Ele tem alergia a algum medicamento, senhora?
      - Tem não senhor.
      - Ta certo. E medo de agulha?
      - Também não.

      E em meio à tranquilidade, o caos. Estávamos na sala de urgência do maior hospital de uma cidade de 180 mil habitantes, no interior do Pará. No meio da conversa, entra toda a equipe de enfermagem e um dos médicos de plantão com um homem todo esfaqueado, sangrando litros. O médico que me acompanhava no pequeno procedimento teve que ir se juntar, às pressas, à equipe que cuidava do homem esfaqueado. A mãe do garotinho teve que sair da sala. E só ficou eu e meu pequeno companheiro, de apenas 10 anos e que tanto se fazia de forte. Eu já estava com as luvas na mão e com todo o material de sutura preparado. Aquele seria o meu terceiro procedimento. Sorri meio sem graça para o meu parceirinho, que estava deitado e com cara de desespero, por causa da movimentação. "Agora somos só eu e você. Boa sorte para nós", pensei. Respirei fundo, fiz cara de quem dominava a situação e comecei o procedimento.
      - Força garotão, agora vai doer um pouco. Mas vai ser rapidinho, é só a anestesia.
     E o homenzinho nada de chorar. Aguentou firme as agulhadas no corte da cabeça e a dor da anestesia, que poucos suportam sem gritar. O pequeno corte levou apenas dois pontos. O pior era o movimento dos dois médicos, do enfermeiro e dos dois técnicos que cuidavam do homem que berrava na sala. Tudo o que eu havia aprendido ia até ali. Aprendido na prática, nada na faculdade ainda. Das outras duas vezes eu havia feito os pontos e os técnicos finalizavam o procedimento. Limpavam e faziam o curativo. Eu não sabia fazer isso. Ninguém para me ajudar. E a cada minuto, a cada grito de dor do homem ao nosso lado, meu pequeno amigo ficava mais angustiado e eu me sentia mais impotente, sem forças, incapacitado de ajudar meu parceirinho, de livrá-lo daquele show de horror.


      O terceiro médico do plantão estava fazendo algumas anotações na sala anexa, como se nada acontecesse.

      - Doutor, o senhor pode me ajudar? Está faltando finalizar a sutura de um garotinho aqui do lado e eu não sei fazer e todos estão cuidando do homem esfaqueado e eu estou preocupado com o garotinho que esta vendo e ouvindo tudo, deitado na maca.
      - Eu não vou. Isso é função do técnico de enfermagem, pensei que você tivesse aprendido isso na universidade.
      - Eu sei doutor, mas os técnicos daqui estão ajudando os outros médicos aqui do lado.
      - Então espere.



      Voltei pro lado do meu companheiro, sem poder fazer nada. Chamei o técnico e fiquei ali, parado. "Vai terminar daqui a pouco, você vai já pra casa". As lágrimas nos olhos daquele rapazinho que havia aguentado todas as dores sem ao menos falar foram a minha resposta. Quinze longos minutos ouvindo gritos e barulhos de correria se passaram até o meu pequeno amigo ficar livre de tudo aquilo.

Gente que fica

Texto de Andressa Castro

Acontece aos poucos, mas a gente demora para se dar conta do que está se passando, então parece que tudo foi de uma vez só. Uma hora você é o filho ou filha que era cuidado e de repente você está ali tomando conta dos seus velhos. Você que antes ficava esperando as compras chegarem do supermercado e procurando o que gosta nas sacolas que chegam agora está fazendo compras por si só, escolhendo carnes e verduras. Você que antes dormia de qualquer jeito porque sabia que alguém desligaria a TV se você a deixasse acesa agora está desligando a televisão do hospital para que o outro durma bem. Chegou a hora de você cuidar dos seus pais.
Um tapa na cara nos aguarda: descobrir que nossos pais não são para sempre.  A gente costuma ignorar isso tão frequentemente que toma um susto quando lembra. Se você se deu conta disso enquanto seus pais são vivos, sorte a sua. Pior é quando se lembra da finitude parental quando já é tarde demais: diante da morte de um deles, ou até de ambos. Pensando bem, um tapa na cara é muito eufêmico; perceber que nossos pais um dia vão morrer é receber uma voadora no peito. Acho que é por isso que a gente costuma ignorar o fato: porque dói muito.
A despeito da dor, a percepção tem seu valor pedagógico, vem nos ensinar alguma coisa. E aí a gente faz aquele jogo de Pollyanna (a personagem menina-moça-mulher): o que podemos tirar de positivo dessa experiência? Bom, primeiro vou contar o que fez minha mãe. Quando ela perdeu seu pai eu ainda estava na escola, mas sua mudança de comportamento foi notável. A perda a fez valorizar mais ainda o convívio com sua mãe e até com sua sogra. Perder nos ensina a valorizar o que temos. Minhas avós passaram a ser mais amadas e cuidadas quando sua finitude foi percebida. Foram tratadas com mais paciência e dedicação. E aí um dia aconteceu comigo. Painho teve fortes dores no peito e foi hospitalizado com grave obstrução coronária – estava prestes a infartar, sendo internado até a cirurgia de urgência.
Eu tive mais sorte que minha mãe, porque meu pai sobreviveu as cirurgias e está por aí pra contar a história. Mas antes de ficar tudo bem, senti a voadora em mim. Meu pai pode morrer. Senti quando me ligaram dizendo que meu pai ia ser cirurgiado naquela mesma manhã. Fui o caminho todo pensando no pior. Meu pai ainda não me viu ser médica, não me viu ser mãe. Quem ia fazer suas palhaçadas? Quem iria entrar na igreja comigo quando eu me casasse? Quem iria mimar meus filhos e ser avô babão? Definitivamente eu não estava preparada para perder meu pai.
O que fazer quando se pode perder alguém a qualquer momento? Cuidar. E se a gente parar pra pensar que a qualquer momento podemos perder nossos amados,talvez cuidássemos melhor deles, talvez deixássemos as brigas bobas de lado, olhássemos nos olhos, quiça disséssemos palavras de amor mais frequentemente.
Foi uma semana intensa. O hospital é o local de confronto com nossa fragilidade. Meus olhos e ouvidos estavam aguçados para o que era mais humano nas pessoas. Apesar desse cenário, foi uma semana de pai-e-filha. Fazia tempo que não passávamos tanto tempo juntos. Conversamos sobre diversas coisas. Dissemos que ambos iríamos provavelmente morrer pela boca, mas que pela carne de sol do Tábua de Carne talvez valesse a pena. Numa das tardes, levei meu livro de anatomia para o hospital. Queria estudar o coração para poder acompanhar a cirurgia de painho no dia seguinte. Aproveitei para apresenta-los. “Pai,olha, essa é a artéria que está obstruída no coração. Olha como ela é grande e importante. Ela leva sangue pra toda essa parte aqui, ó.” Li para ele o que o livro dizia sobre angioplastia, seus riscos e benefícios. Falei sobre a importância de mudar os hábitos de alimentação depois da cirurgia.
Assisti ao cateterismo e à angioplastia, conversei com os cirurgiões, resolvi as burocracias com o plano de saúde, negociei a retirada do soro intravenoso que incomodava meu pai e por hora era desnecessário. Como foi bom estar lá como filha e estudante de medicina, poder acompanhar de perto os procedimentos e não ter que ficar na sala de espera sem saber o que se passa lá no centro cirúrgico. Foi bom poder servir o jantar a ele, que tantas vezes me deu de comer.
Faltei aula a tarde para ficar com ele,mesmo sabendo que meu  irmão já iria estar no hospital. Dessa vez,eu precisava estar lá por mim mesma. Queria ficar com ele, tomar as lições que ele passava com seu jeito de ser. Levei um livro de quadrinhos de Calvin e adorei saber que ele deu altas risadas na enfermaria vendo as presepadas do menino. Queria ter essa capacidade que ele tem de manter o bom humor a todo dia. Por essas e por outras que nossos dias de convívio hospitalar me fizeram me apaixonar de novo por meu pai. Sou muito sortuda por ter nascido sua filha.
A gente veste tão constantemente os nossos personagens que às vezes não percebe quando “a roupa” fica apertada. “A família é um sistema”, dizia o professor na aula de atenção em saúde à família. A gente compreende mais rapidamente a teoria na família dos outros, mas chega uma hora na qual nossos velhos precisam de nós e aí é nossa vez de assumir novas responsabilidades, largar  papéis antigos e vestir novas "roupas", mais adequadas. Se eu não estava acostumada a desempenhar o papel de cuidadora frente a meu pai, ele tampouco estava habituado a ser cuidado assim por mim. Ficava dizendo que não precisava cobri-lo, que podia ir ao banheiro sozinho, mesmo estando com o soro pendurado. Não queria incomodar. Não queria que ninguém se preocupasse com ele. Nos dias seguintes, fui a responsável por pagar contas,fazer compras no supermercado, servir lanche para as visitas, comprar o pão... E me dei conta de quantas coisas nossos pais fazem por nós sem que saibamos dar valor.  
Meu pai só precisou de alguns dias de repouso para se recuperar da cirurgia, mas de alguma forma, saímos os dois tão diferentes do hospital. Ele mudou seus hábitos alimentares, passou a cuidar melhor do seu coração, da sua saúde. E eu passei a cuidar melhor dele. 

Para sorrir diferente



Texto de Maria Pires

Perca aula para ir ao bosque resolver problemas do coração, vá a praia no fim da tarde, faça visitas surpresas, saia para namorar na segunda ao invés do sábado, convide alguém com estilo diferente do seu para passear, escreva o inverso, cante alto com os vidros do carro aberto, saia de casa com o cabelo molhado, dê presentes fora de hora, tome cerveja quando sentir vontade, diga que ela está linda quando tiver com a maquiagem borrada (também não esqueça de dizer quando ela estiver verdadeiramente linda), experimente usar roupas que nunca usou, vá ao cinema sozinho, grave um vídeo de você mesmo dançando e/ou cantando, revele segredos, diga oi para o senhor da esquina, sorria para o mendigo que pede para lavar o vidro do seu carro, passe uma noite sem dormir para ver o sol nascer, experimente não olhar no relógio enquanto o dia segue, deixe as surpresas do dia substituir os compromissos e responsabilidades (só por um dia), invente um cardápio, brinque de torta na cara, se delicie com novos sabores, mude o caminho de casa até a faculdade, faça seu casamento com cores fortes e vibrantes, decore seu quarto com flores naturais, tome banho de chuva, converse com um desconhecido, invente amores, viaje sozinho, vá na padaria a pé e não de carro, visite os bares da periferia da cidade, durma vestida com a camisa do seu amor, convide seus amigos para sua casa, ofereça palavras aos tímidos e atitudes aos desestimulados. Crie coragem de ser feliz agora. Tá esperando o quê?

domingo, 2 de junho de 2013

A chave da felicidade





                                                     Texto de Mário Sérgio Cortella

Múltiplas são as pistas sobre o lugar onde se encontra a "chave da felicidade" e, claro, o seu provável modelo. Alguns o situam na arte desprendida; outros, na religião obsessiva.

Há uma hilariante e inesquecível tirinha entre as milhares desenhadas pelo argentino Joaquin Salvador Lavado, o Quino, na qual, usando da aguda embora atordoada inteligência de Mafalda (sua mais conhecida personagem, inventada em 1963), ele consegue expressar com clareza alguns dos meandros, que envolvem a existência humana. No primeiro quadrinho dessa "tira, Mafalda se aproxima de uma loja de esquina onde há um idoso chaveiro; no quadrinho seguinte, entra no prédio e, cinicamente, diz a ele: "Bom dia. Quero uma chave da felicidade". Sem demonstrar espanto, no terceiro quadrinho, ele dirige um olhar complacente e lhe responde: "Com certeza, menina. Traz o modelo?". Sai ela então da loja, caminhando sem graça e pensando: "Espertalhão o velhinho!".

O modelo, onde está o modelo? Ou, melhor ainda, existiria um modelo? É preciso haver um? Múltiplas são as pistas sobre o lugar onde se encontra a "chave da felicidade" e, claro, o seu provável modelo. Alguns o situam na arte desprendida; outros, na religião obsessiva; muitos, no consumo desvairado; vários, na política indolente; poucos, na filosofia militante; inúmeros, no trabalho insano; raros, na dignidade coletiva.

O que seria esse almejado horizonte a que uma chave desconhecida, distante ou simplesmente invisível poderia proporcionar o acesso? Felicidade pode ser estado de espírito, não uma situação material; pode ainda despontar como um sentimento passageiro ou um devaneio fugaz. Marcando-se em nossa existência sempre como uma ocorrência episódica, remete-se, talvez, ao terreno ocupado por uma sabedoria misteriosa contida na frase do escritor e polemista francês Barbey D’Aurevilly, que, no século 19, era, curiosamente, um difusor e admirador do satanismo, ao dizer que "o prazer é a felicidade dos loucos; a felicidade é o prazer dos sábios".

Qual seria, então, a carga de verdade contida na advertência feita pelo muçulmano Saadi, escritor lírico cujas obras foram as primeiras poesias persas a serem traduzidas para o Ocidente moderno? Em meados do século 13, após ter sido libertado das mãos dos cruzados e ter-se enclausurado voluntariamente em uma espécie de convento, escreveu (em pleno deserto!) a coletânea "O Jardim das Rosas" e nela registrou (indicando uma das chaves possíveis): "Lamente por aquele que julga haver achado a felicidade, inveje aquele que a procura e a abandonará tão logo a encontre. A única felicidade consiste em esperar a felicidade".

Por isso a idéia de chave lembra uma reflexão de Gilberto Amado, diplomata brasileiro eleito membro imortal da Academia Brasileira de Letras no mesmo ano em que nascia Mafalda.

Em meio à extensa obra memorialista e ensaística do escritor sergipano, destaca-se o livro inicial, "A Chave de Salomão" (1914), um elogio ao espírito contemplativo. Nesse ensaio, ele afirma que "felicidade é sinônimo de tranquilidade; ser feliz é ser tranquilo".

Ser feliz é ser tranquilo! Felicidade como estado de serenidade, como a capacidade de atravessar as perturbações cotidianas sem resvalar no desespero; felicidade como possibilidade de amainar a consciência e repousar a mente muitas vezes atormentada; felicidade como vivência plácida, mas distante do imobilismo e bem próxima da paz. Porém, nova complicação, o que é estar em paz.

Felicidade: sensação primordial ou meta inalcançável? Conquista paulatina ou ingenuidade pueril? Liberdade de busca ou armadilha romântica?

Se o soubéssemos, seríamos mais felizes?