Texto de Andressa Castro
Acontece aos
poucos, mas a gente demora para se dar conta do que está se passando, então
parece que tudo foi de uma vez só. Uma hora você é o filho ou filha que era
cuidado e de repente você está ali tomando conta dos seus velhos. Você que
antes ficava esperando as compras chegarem do supermercado e procurando o que
gosta nas sacolas que chegam agora está fazendo compras por si só, escolhendo
carnes e verduras. Você que antes dormia de qualquer jeito porque sabia que
alguém desligaria a TV se você a deixasse acesa agora está desligando a
televisão do hospital para que o outro durma bem. Chegou a hora de você cuidar
dos seus pais.
Um tapa na cara nos
aguarda: descobrir que nossos pais não são para sempre. A gente costuma
ignorar isso tão frequentemente que toma um susto quando lembra. Se você se deu
conta disso enquanto seus pais são vivos, sorte a sua. Pior é quando se lembra
da finitude parental quando já é tarde demais: diante da morte de um deles, ou
até de ambos. Pensando bem, um tapa na cara é muito eufêmico; perceber que
nossos pais um dia vão morrer é receber uma voadora no peito. Acho que é por
isso que a gente costuma ignorar o fato: porque dói muito.
A despeito da dor,
a percepção tem seu valor pedagógico, vem nos ensinar alguma coisa. E aí a
gente faz aquele jogo de Pollyanna (a personagem menina-moça-mulher): o que
podemos tirar de positivo dessa experiência? Bom, primeiro vou contar o que fez
minha mãe. Quando ela perdeu seu pai eu ainda estava na escola, mas sua mudança
de comportamento foi notável. A perda a fez valorizar mais ainda o convívio com
sua mãe e até com sua sogra. Perder nos ensina a valorizar o que temos. Minhas
avós passaram a ser mais amadas e cuidadas quando sua finitude foi percebida.
Foram tratadas com mais paciência e dedicação. E aí um dia aconteceu comigo.
Painho teve fortes dores no peito e foi hospitalizado com grave obstrução
coronária – estava prestes a infartar, sendo internado até a cirurgia de
urgência.
Eu tive mais sorte
que minha mãe, porque meu pai sobreviveu as cirurgias e está por aí pra contar
a história. Mas antes de ficar tudo bem, senti a voadora em mim. Meu pai pode
morrer. Senti quando me ligaram dizendo que meu pai ia ser cirurgiado naquela
mesma manhã. Fui o caminho todo pensando no pior. Meu pai ainda não me viu ser
médica, não me viu ser mãe. Quem ia fazer suas palhaçadas? Quem iria entrar na
igreja comigo quando eu me casasse? Quem iria mimar meus filhos e ser avô
babão? Definitivamente eu não estava preparada para perder meu pai.
O que fazer quando se pode perder alguém a qualquer momento? Cuidar. E se a gente parar pra pensar que a qualquer momento podemos perder nossos amados,talvez cuidássemos melhor deles, talvez deixássemos as brigas bobas de lado, olhássemos nos olhos, quiça disséssemos palavras de amor mais frequentemente.
O que fazer quando se pode perder alguém a qualquer momento? Cuidar. E se a gente parar pra pensar que a qualquer momento podemos perder nossos amados,talvez cuidássemos melhor deles, talvez deixássemos as brigas bobas de lado, olhássemos nos olhos, quiça disséssemos palavras de amor mais frequentemente.
Foi uma semana
intensa. O hospital é o local de confronto com nossa fragilidade. Meus olhos e
ouvidos estavam aguçados para o que era mais humano nas pessoas.
Apesar desse cenário, foi uma semana de pai-e-filha. Fazia tempo que não
passávamos tanto tempo juntos. Conversamos sobre diversas coisas. Dissemos que
ambos iríamos provavelmente morrer pela boca, mas que pela carne de sol do
Tábua de Carne talvez valesse a pena. Numa das tardes, levei meu livro de
anatomia para o hospital. Queria estudar o coração para poder acompanhar a cirurgia
de painho no dia seguinte. Aproveitei para apresenta-los. “Pai,olha, essa é a
artéria que está obstruída no coração. Olha como ela é grande e importante. Ela
leva sangue pra toda essa parte aqui, ó.” Li para ele o que o livro dizia sobre
angioplastia, seus riscos e benefícios. Falei sobre a importância de mudar os
hábitos de alimentação depois da cirurgia.
Assisti ao
cateterismo e à angioplastia, conversei com os cirurgiões, resolvi as
burocracias com o plano de saúde, negociei a retirada do soro intravenoso que
incomodava meu pai e por hora era desnecessário. Como foi bom estar lá como
filha e estudante de medicina, poder acompanhar de perto os procedimentos e não
ter que ficar na sala de espera sem saber o que se passa lá no centro
cirúrgico. Foi bom poder servir o jantar a ele, que tantas vezes me deu de
comer.
Faltei aula a tarde
para ficar com ele,mesmo sabendo que meu irmão já iria estar no hospital.
Dessa vez,eu precisava estar lá por mim mesma. Queria ficar com ele, tomar as
lições que ele passava com seu jeito de ser. Levei um livro de quadrinhos de
Calvin e adorei saber que ele deu altas risadas na enfermaria vendo as
presepadas do menino. Queria ter essa capacidade que ele tem de manter o bom
humor a todo dia. Por essas e por outras que nossos dias de convívio hospitalar
me fizeram me apaixonar de novo por meu pai. Sou muito sortuda por ter nascido
sua filha.
A gente veste tão
constantemente os nossos personagens que às vezes não percebe quando “a roupa”
fica apertada. “A família é um sistema”, dizia o professor na aula de atenção
em saúde à família. A gente compreende mais rapidamente a teoria na família dos
outros, mas chega uma hora na qual nossos velhos precisam de nós e aí é nossa
vez de assumir novas responsabilidades, largar papéis antigos e vestir
novas "roupas", mais adequadas. Se eu não estava acostumada a
desempenhar o papel de cuidadora frente a meu pai, ele tampouco estava
habituado a ser cuidado assim por mim. Ficava dizendo que não precisava
cobri-lo, que podia ir ao banheiro sozinho, mesmo estando com o soro pendurado.
Não queria incomodar. Não queria que ninguém se preocupasse com ele. Nos dias
seguintes, fui a responsável por pagar contas,fazer compras no supermercado,
servir lanche para as visitas, comprar o pão... E me dei conta de quantas
coisas nossos pais fazem por nós sem que saibamos dar valor.
Meu pai só precisou de
alguns dias de repouso para se recuperar da cirurgia, mas de alguma forma,
saímos os dois tão diferentes do hospital. Ele mudou seus hábitos
alimentares, passou a cuidar melhor do seu coração, da sua saúde. E eu passei a
cuidar melhor dele.
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