domingo, 9 de junho de 2013

Gente que fica

Texto de Andressa Castro

Acontece aos poucos, mas a gente demora para se dar conta do que está se passando, então parece que tudo foi de uma vez só. Uma hora você é o filho ou filha que era cuidado e de repente você está ali tomando conta dos seus velhos. Você que antes ficava esperando as compras chegarem do supermercado e procurando o que gosta nas sacolas que chegam agora está fazendo compras por si só, escolhendo carnes e verduras. Você que antes dormia de qualquer jeito porque sabia que alguém desligaria a TV se você a deixasse acesa agora está desligando a televisão do hospital para que o outro durma bem. Chegou a hora de você cuidar dos seus pais.
Um tapa na cara nos aguarda: descobrir que nossos pais não são para sempre.  A gente costuma ignorar isso tão frequentemente que toma um susto quando lembra. Se você se deu conta disso enquanto seus pais são vivos, sorte a sua. Pior é quando se lembra da finitude parental quando já é tarde demais: diante da morte de um deles, ou até de ambos. Pensando bem, um tapa na cara é muito eufêmico; perceber que nossos pais um dia vão morrer é receber uma voadora no peito. Acho que é por isso que a gente costuma ignorar o fato: porque dói muito.
A despeito da dor, a percepção tem seu valor pedagógico, vem nos ensinar alguma coisa. E aí a gente faz aquele jogo de Pollyanna (a personagem menina-moça-mulher): o que podemos tirar de positivo dessa experiência? Bom, primeiro vou contar o que fez minha mãe. Quando ela perdeu seu pai eu ainda estava na escola, mas sua mudança de comportamento foi notável. A perda a fez valorizar mais ainda o convívio com sua mãe e até com sua sogra. Perder nos ensina a valorizar o que temos. Minhas avós passaram a ser mais amadas e cuidadas quando sua finitude foi percebida. Foram tratadas com mais paciência e dedicação. E aí um dia aconteceu comigo. Painho teve fortes dores no peito e foi hospitalizado com grave obstrução coronária – estava prestes a infartar, sendo internado até a cirurgia de urgência.
Eu tive mais sorte que minha mãe, porque meu pai sobreviveu as cirurgias e está por aí pra contar a história. Mas antes de ficar tudo bem, senti a voadora em mim. Meu pai pode morrer. Senti quando me ligaram dizendo que meu pai ia ser cirurgiado naquela mesma manhã. Fui o caminho todo pensando no pior. Meu pai ainda não me viu ser médica, não me viu ser mãe. Quem ia fazer suas palhaçadas? Quem iria entrar na igreja comigo quando eu me casasse? Quem iria mimar meus filhos e ser avô babão? Definitivamente eu não estava preparada para perder meu pai.
O que fazer quando se pode perder alguém a qualquer momento? Cuidar. E se a gente parar pra pensar que a qualquer momento podemos perder nossos amados,talvez cuidássemos melhor deles, talvez deixássemos as brigas bobas de lado, olhássemos nos olhos, quiça disséssemos palavras de amor mais frequentemente.
Foi uma semana intensa. O hospital é o local de confronto com nossa fragilidade. Meus olhos e ouvidos estavam aguçados para o que era mais humano nas pessoas. Apesar desse cenário, foi uma semana de pai-e-filha. Fazia tempo que não passávamos tanto tempo juntos. Conversamos sobre diversas coisas. Dissemos que ambos iríamos provavelmente morrer pela boca, mas que pela carne de sol do Tábua de Carne talvez valesse a pena. Numa das tardes, levei meu livro de anatomia para o hospital. Queria estudar o coração para poder acompanhar a cirurgia de painho no dia seguinte. Aproveitei para apresenta-los. “Pai,olha, essa é a artéria que está obstruída no coração. Olha como ela é grande e importante. Ela leva sangue pra toda essa parte aqui, ó.” Li para ele o que o livro dizia sobre angioplastia, seus riscos e benefícios. Falei sobre a importância de mudar os hábitos de alimentação depois da cirurgia.
Assisti ao cateterismo e à angioplastia, conversei com os cirurgiões, resolvi as burocracias com o plano de saúde, negociei a retirada do soro intravenoso que incomodava meu pai e por hora era desnecessário. Como foi bom estar lá como filha e estudante de medicina, poder acompanhar de perto os procedimentos e não ter que ficar na sala de espera sem saber o que se passa lá no centro cirúrgico. Foi bom poder servir o jantar a ele, que tantas vezes me deu de comer.
Faltei aula a tarde para ficar com ele,mesmo sabendo que meu  irmão já iria estar no hospital. Dessa vez,eu precisava estar lá por mim mesma. Queria ficar com ele, tomar as lições que ele passava com seu jeito de ser. Levei um livro de quadrinhos de Calvin e adorei saber que ele deu altas risadas na enfermaria vendo as presepadas do menino. Queria ter essa capacidade que ele tem de manter o bom humor a todo dia. Por essas e por outras que nossos dias de convívio hospitalar me fizeram me apaixonar de novo por meu pai. Sou muito sortuda por ter nascido sua filha.
A gente veste tão constantemente os nossos personagens que às vezes não percebe quando “a roupa” fica apertada. “A família é um sistema”, dizia o professor na aula de atenção em saúde à família. A gente compreende mais rapidamente a teoria na família dos outros, mas chega uma hora na qual nossos velhos precisam de nós e aí é nossa vez de assumir novas responsabilidades, largar  papéis antigos e vestir novas "roupas", mais adequadas. Se eu não estava acostumada a desempenhar o papel de cuidadora frente a meu pai, ele tampouco estava habituado a ser cuidado assim por mim. Ficava dizendo que não precisava cobri-lo, que podia ir ao banheiro sozinho, mesmo estando com o soro pendurado. Não queria incomodar. Não queria que ninguém se preocupasse com ele. Nos dias seguintes, fui a responsável por pagar contas,fazer compras no supermercado, servir lanche para as visitas, comprar o pão... E me dei conta de quantas coisas nossos pais fazem por nós sem que saibamos dar valor.  
Meu pai só precisou de alguns dias de repouso para se recuperar da cirurgia, mas de alguma forma, saímos os dois tão diferentes do hospital. Ele mudou seus hábitos alimentares, passou a cuidar melhor do seu coração, da sua saúde. E eu passei a cuidar melhor dele. 

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