Texto de Íkaro Murilo
E
a fotografia dessas férias, de novo um menino, mais uma vez deixou marcas em
mim.
O que é um médico senão um servidor? Um servidor da vida, do próximo, do
semelhante, do frágil. Hoje, ainda um simples e sonhador estudante de medicina,
penso em fazer mais, fazer diferente. Mas, diferente como? De quem? Como ser
forte o suficiente para não deixar a frieza necessária e saudável à minha
profissão ser maior que eu, que meus princípios, que meus sonhos?
Aprendi a suturar. Um nó apenas, mas já um bom começo.
- Vai lá Doutor, essa você consegue. Mostra que aprendeu de verdade.
- Doutor, é? Falta tanto ainda...
- É um rapazinho que caiu, bateu a cabeça na calçada e está com um corte. Mas é
pequeno, você tira de letra.
- Ta certo, manda o grandão entrar.
- Oi Doutor, já sangrou tanto. Mas ele ainda não chorou. Estou preocupada.
- Ainda não chorou? E me disseram que era uma criancinha que ia entrar, se eu
soubesse que era um homem, tinha pesquisado alguma coisa sobre futebol pra
conversar. Deixa eu ver esse corte... Rapaz, se fosse em mim eu ainda estaria
chorando. É um homem mesmo. Ele tem alergia a algum medicamento, senhora?
- Tem não senhor.
- Ta certo. E medo de agulha?
- Também não.
E em meio à tranquilidade, o caos. Estávamos na sala de urgência do maior
hospital de uma cidade de 180 mil habitantes, no interior do Pará. No meio da
conversa, entra toda a equipe de enfermagem e um dos médicos de plantão com um
homem todo esfaqueado, sangrando litros. O médico que me acompanhava no pequeno
procedimento teve que ir se juntar, às pressas, à equipe que cuidava do homem
esfaqueado. A mãe do garotinho teve que sair da sala. E só ficou eu e meu
pequeno companheiro, de apenas 10 anos e que tanto se fazia de forte. Eu já estava
com as luvas na mão e com todo o material de sutura preparado. Aquele seria o
meu terceiro procedimento. Sorri meio sem graça para o meu parceirinho, que
estava deitado e com cara de desespero, por causa da movimentação. "Agora
somos só eu e você. Boa sorte para nós", pensei. Respirei fundo, fiz cara
de quem dominava a situação e comecei o procedimento.
- Força garotão, agora vai doer um pouco. Mas vai ser rapidinho, é só a
anestesia.
E o homenzinho nada de chorar. Aguentou firme as agulhadas no corte da cabeça e
a dor da anestesia, que poucos suportam sem gritar. O pequeno corte levou
apenas dois pontos. O pior era o movimento dos dois médicos, do enfermeiro e
dos dois técnicos que cuidavam do homem que berrava na sala. Tudo o que eu
havia aprendido ia até ali. Aprendido na prática, nada na faculdade ainda. Das
outras duas vezes eu havia feito os pontos e os técnicos finalizavam o
procedimento. Limpavam e faziam o curativo. Eu não sabia fazer isso. Ninguém
para me ajudar. E a cada minuto, a cada grito de dor do homem ao nosso lado,
meu pequeno amigo ficava mais angustiado e eu me sentia mais impotente, sem
forças, incapacitado de ajudar meu parceirinho, de livrá-lo daquele show de
horror.
O terceiro médico do plantão estava fazendo algumas anotações na sala anexa,
como se nada acontecesse.
- Doutor, o senhor pode me ajudar? Está faltando finalizar a sutura de um
garotinho aqui do lado e eu não sei fazer e todos estão cuidando do homem
esfaqueado e eu estou preocupado com o garotinho que esta vendo e ouvindo tudo,
deitado na maca.
- Eu não vou. Isso é função do técnico de enfermagem, pensei que você tivesse
aprendido isso na universidade.
- Eu sei doutor, mas os técnicos daqui estão ajudando os outros médicos aqui do
lado.
- Então espere.
Voltei pro lado do meu companheiro, sem poder fazer nada. Chamei o técnico e
fiquei ali, parado. "Vai terminar daqui a pouco, você vai já pra
casa". As lágrimas nos olhos daquele rapazinho que havia aguentado todas
as dores sem ao menos falar foram a minha resposta. Quinze longos minutos
ouvindo gritos e barulhos de correria se passaram até o meu pequeno amigo ficar
livre de tudo aquilo.
Que horror! E saber que isso é o que nos espera (e nossos pacientes também)...
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