segunda-feira, 17 de agosto de 2015
Primeira lição
Primeira aula do internato. Vi uma puérpera com muita dor porque sua ferida operatória da cesárea havia infectado e o médico botava o ultrassom bem em cima de onde doía. Ele não falou com ela. Mandou a enfermeira prepara-la com a (pouca) roupa e a (constrangedora) posição adequada. Não a acalmou. Não explicou que o aparelho precisava ser colocado justamente em cima da cicatriz para vermos se havia complicações. Não avisou que o exame ia doer mas era necessário. Não informou que o exame ia permitir tratá-la adequadamente. Não a confortou dizendo que faltava pouco. Apenas explicou os achados na ultrassonografia a nós, estudantes, ignorando os gemidos de dor da paciente. E de repente era eu que estava ali, recém cirurgiada, com ferida infectada, semi-coberta, com dor, com medo, sem saber o que havia de errado comigo enquanto o médico falava sobre mim na minha frente com todos os que estavam na sala, menos comigo. Era eu que gemia e tentava tirar o ultrassom de cima de mim enquanto a enfermeira segurava minhas mãos. O exame parecia interminável, mas uma hora terminou. A paciente saiu da sala. Voltei a estar estudante. Primeira lição: não aprender a medicina que não quero para mim.
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